Gestão Financeira

Margem de lucro de hamburgueria — quanto sobra no salão vs delivery

O mesmo burger de R$28 deixa R$14,53 no salão e R$7,24 no iFood. Veja a conta lado a lado, a margem ideal e onde a hamburgueria realmente lucra.

·11 min de leitura·Tamy Food

O mesmo hambúrguer de R$28,00 deixa R$14,53 no bolso quando sai no salão — e R$7,24 quando sai pelo iFood. Metade. E a maioria dos donos de hamburgueria olha o faturamento somado dos dois canais, vê a casa vendendo bem e não entende por que a margem de lucro da hamburgueria não aparece na conta no fim do mês.

Não é falta de venda. Brasileiros pediram 250 milhões de hambúrgueres em 2024, um salto de 207% em relação a 2023 (iFood). O segmento cresceu 10,4% ao ano entre 2015 e 2023 (SEBRAE, 2025). O problema é outro: cada canal tem uma margem diferente, e quem não separa a conta está usando o lucro do salão para pagar o prejuízo do delivery — sem saber.

Quanto lucra uma hamburgueria: faixa realista de margem líquida (e por que 'artesanal' não é sinônimo de lucro)

Os benchmarks do segmento (SEBRAE, 2024):

IndicadorFaixa saudávelSinal de perigo
Margem bruta da casa (mix completo, após CMV)62–70%abaixo de 55%
Margem líquida (após tudo)14–20%abaixo de 9%

Repare: essa margem bruta é da casa inteira — burger + batata + bebida somados. O sanduíche sozinho opera abaixo disso, e é o mix que fecha a conta (você vai ver o porquê na seção de combos).

Na prática: uma hamburgueria que fatura R$60.000/mês com margem líquida saudável coloca entre R$8.400 e R$12.000 no bolso do dono. Com margem de 5% — que é onde muita casa "artesanal" opera sem saber — sobram R$3.000. Para 12 horas por dia na chapa.

E aqui está a pegadinha do "artesanal": blend de picanha, pão de fermentação natural, cheddar inglês e caixa premium sobem o custo em R$4 a R$8 por burger — mas o preço de venda não sobe na mesma proporção, porque o cliente compara com a hamburgueria do lado. Resultado: quanto mais "artesanal" a proposta, mais apertada tende a ficar a margem, se a ficha técnica não estiver na mão. Artesanal é posicionamento. Lucro é matemática.

O ponto de partida é o mesmo de qualquer restaurante: saber a margem líquida real, por canal. Vamos montar essa conta.

A anatomia do custo de um burger: blend, pão, queijo, embalagem — do custo ao preço com margem

Pergunta clássica: "quanto custa seu hambúrguer?" Resposta clássica: "uns R$7 — carne, pão e queijo". A ficha técnica completa tem 12+ itens, e detalhamos linha por linha no custo real do hambúrguer artesanal. O resumo:

Bloco de custoValor
Blend 150g (acém + fraldinha)R$5,93
Pão briocheR$1,80
Queijo cheddar (30g)R$1,65
Bacon, vegetais, molho da casaR$2,18
Tempero, óleo de chapa, gásR$0,55
Guardanapo, palito, luvaR$0,16
Embalagem (papel manteiga + caixa)R$1,20
Custo total no balcãoR$13,47

Com preço de venda de R$28,00, a margem bruta por unidade é R$14,53 — 51,9%. Desses R$14,53 ainda saem aluguel, equipe, energia, imposto e o seu pró-labore. É por isso que margem bruta boa não garante margem líquida boa.

Para precificar a partir do custo, a fórmula é direta:

Preço mínimo = Custo da ficha técnica ÷ (1 - margem bruta desejada)

Exemplo: R$13,47 ÷ (1 − 0,55) = R$29,93 para operar com 55% de margem bruta no balcão. Arredonde para R$29,90.

Essa é a conta do salão. Agora vem a parte que quebra hamburgueria.

Salão vs delivery: o mesmo burger com duas margens completamente diferentes (conta lado a lado)

Mesmo burger, mesma ficha técnica, mesmo preço de R$28,00. Só muda a porta de saída:

SalãoDelivery (iFood, plano com entrega — 23%)
Preço de vendaR$28,00R$28,00
Custo da ficha técnicaR$13,47R$13,47
Sacola + etiqueta + lacreR$0,85
Comissão da plataformaR$6,44
Custo totalR$13,47R$20,76
Sobra por burgerR$14,53 (51,9%)R$7,24 (25,9%)

O canal delivery entrega metade da margem do salão, no mesmo produto, no mesmo preço. Se a casa vende 1.000 burgers/mês e 60% saem pelo app com preço igual ao do balcão, são R$4.374 de margem evaporando todo mês — R$52.000 por ano — sem nenhum alarme tocar.

E a conta acima ainda é o cenário bom. Entre na promoção de "entrega grátis" subsidiando R$4 por pedido e a sobra do delivery cai para R$3,24 — 11,6%. Depois de ratear custo fixo (que costuma consumir 25–35% do faturamento), esse pedido sai do lucro e entra no prejuízo. Você paga para vender.

A correção não é sair do app — é precificar o canal:

Preço delivery = (Custo ficha + embalagem delivery) ÷ (1 - comissão) ÷ (1 - margem desejada no líquido)
= (R$13,47 + R$0,85) ÷ 0,77 ÷ 0,55 = R$33,81 → R$33,90

Um detalhe honesto nessa fórmula: a margem desejada aqui é 45% sobre o valor líquido — o que sobra depois da comissão. Mirar os mesmos 55% do balcão jogaria o burger a R$41,90, fora do preço de mercado da maioria das praças. Entre 45% no app e 25,9% engolindo a comissão calado, a escolha é fácil.

R$33,90 são R$5,90 a mais que no balcão. Não é abuso — é o custo real do canal aparecendo no preço, como deve ser.

Comissão do app + embalagem + taxa de entrega: quanto o delivery come do seu lucro

Empilhando tudo o que só existe no pedido de app:

  • Comissão da plataforma: 12% a 27%. Plano básico do iFood fica na faixa de 12% + mensalidade; plano com entrega da plataforma chega a 23–27%. Num burger de R$28, são R$3,36 a R$7,56 por pedido.
  • Embalagem de delivery: R$2,05 a R$3,35. Caixa que aguenta 30 minutos de moto + sacola + etiqueta + lacre. No balcão, papel manteiga resolve por R$1,20.
  • Taxa de entrega subsidiada: R$3 a R$6 por pedido. Toda campanha de "frete grátis" em que você banca parte da entrega sai direto da sua margem.
  • Cupons e promoções cofinanciadas: 5% a 10% do ticket. O app divide o desconto com você — e o relatório não deixa isso óbvio.
  • Imposto sobre o faturamento bruto. O Simples incide sobre os R$28,00 cheios, incluindo os R$6,44 que ficaram com a plataforma. Você paga imposto sobre dinheiro que nunca viu.

Somando, o canal delivery come 30% a 40% do preço de venda antes de você pagar um quilo de carne. Se a sua margem bruta de balcão é 52%, sobram 12 a 22 pontos para cobrir toda a operação. Fizemos essa conta completa, com cenários por plano de comissão, em iFood: lucro ou prejuízo?

Quer saber se o SEU delivery dá lucro? Conecte o iFood e a maquininha na Tamy e ela separa a margem por canal com seus números reais — teste grátis por 14 dias, sem cartão.

Combos e batata: onde a hamburgueria realmente ganha dinheiro (margem por item)

Aqui está o segredo que as grandes redes entenderam há 50 anos: o hambúrguer atrai o cliente, mas quem paga o aluguel é a batata.

ItemCustoPreçoMargem bruta
Hambúrguer artesanalR$13,47R$28,0051,9%
Batata frita 150gR$2,80R$12,9078,3%
Refrigerante lataR$2,50R$7,0064,3%
Combo (burger + batata + refri)R$18,77R$42,0055,3%

O burger solo deixa R$14,53. O combo deixa R$23,23 — 60% mais lucro por pedido — porque batata e bebida têm margem muito acima da do sanduíche. Cada vez que o atendente pergunta "vai o combo?" e o cliente aceita, entram R$8,70 de margem extra por R$5,30 de custo.

Três movimentos práticos:

  1. Combo como padrão, não como opção. No cardápio do app, o combo vem primeiro; o burger solo é a alternativa.
  2. Precifique a batata pelo valor, não pelo custo. Batata a 78% de margem financia o blend caro do seu carro-chefe.
  3. Meça a taxa de conversão de combo. De cada 10 pedidos, quantos levam combo? Subir de 40% para 60% num volume de 1.000 pedidos/mês são ~R$1.700/mês de margem nova, sem um cliente a mais.

Se você está pensando em abrir a casa ainda, essa lógica de mix entra no plano desde o dia 1 — veja quanto custa abrir uma hamburgueria artesanal.

CMV ideal de hamburgueria e os sinais de que o seu estourou

O CMV (custo de mercadoria vendida) da hamburgueria varia por estilo de produto:

TipoCMV ideal (balcão)CMV perigoso
Smash burger (80–100g)30–38%acima de 45%
Artesanal clássico (150g)38–48%acima de 58%
Gourmet (blend premium, 180g+)40–50%acima de 60%

Quatro sinais de que o seu estourou — antes de qualquer planilha confirmar:

  1. A compra sobe e a venda não. Se o gasto com fornecedor cresceu 10% num mês em que o faturamento cresceu 3%, o CMV subiu 2–3 pontos. Cada ponto de CMV numa casa de R$60k/mês são R$600 a menos de margem.
  2. Freezer cheio, caixa vazio. Estoque parado é CMV disfarçado: dinheiro que saiu do caixa e ainda não virou venda — e parte vai vencer antes de virar.
  3. O blend "premiumizou" sem o preço acompanhar. Trocou acém + fraldinha (R$39,50/kg) por blend com costela (R$60+/kg) e manteve os R$28? São 2 a 4 pontos de CMV engolidos em silêncio.
  4. A carne subiu e a ficha técnica não. O preço da carne oscila toda semana. Ficha técnica com custo de 6 meses atrás significa que você precifica um burger que não existe mais.

O método completo de cálculo e as 7 formas de reduzir sem cortar qualidade estão no guia de CMV para restaurante.

Compare seus canais de venda em 2 minutos

Toda a conta deste artigo — comissão, embalagem, taxa subsidiada, imposto sobre o bruto — está montada no Comparador de Delivery da Tamy, grátis. Você coloca o preço do burger, o custo da ficha e o plano da plataforma, e ele mostra lado a lado quanto sobra no salão, no iFood e no delivery próprio — e qual preço o canal precisa ter para bater a margem que você quer.

Dois minutos. Sem cadastro. É a versão rápida da pergunta que todo dono de hamburgueria deveria responder antes de aceitar o próximo pedido de app: esse pedido dá lucro?

Do custo do hambúrguer à margem do negócio: os próximos passos

A sequência que tira a hamburgueria do achismo:

  1. Ficha técnica completa de cada burger — os 12+ itens, não 3 (comece por aqui)
  2. Preço por canal — delivery R$4–8 acima do balcão, sempre
  3. Margem por item — e combo empurrado como padrão
  4. CMV acompanhado toda semana — não no fechamento do mês, 30 dias tarde demais
  5. Margem líquida por canal, todo dia — o número que decide se o negócio anda

O passo 5 é onde quase todo mundo trava, porque exige cruzar vendas do app, vendas do salão, compras de fornecedor e custo fixo — todo dia. É exatamente isso que a Tamy faz sozinha: conecta iFood, maquininha e notas de compra, separa a margem do salão da margem do delivery e te avisa no WhatsApp quando algo sai do padrão: "Sua margem no iFood caiu para 9% essa semana — a promoção de frete está custando R$1.240. Quer que eu mostre os pedidos?"

Você não monta relatório. A Tamy monta. Você decide.

"Eu tinha orgulho de vender 40% pelo iFood. A Tamy me mostrou que minha margem lá era 8% — contra 21% no salão. Subi o preço do app em R$5, empurrei combo, e o mesmo faturamento passou a deixar R$3.900 a mais por mês." — Diego M., hamburgueria, Campinas


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